BMW M3 E36 – Um legítimo ///M

BMW M3 E36 Korncars I

Sendo uma criança na década de 90 e fã de carros, é normal que toda vez que me deparo com um dos heróis da minha infância que comece a ficar com as pernas bambas. O carro testado, em especial, estava impecável para um carro de 1993, o que torna a análise ainda mais fora de série. Nada como um clássico ainda em ótima forma.

Quanto ao carro dirigido para esse post, tenho a felicidade e tristeza de informar que quase se tornou minha. Por cerca de 50 mil reais e no estado de conservação que estava, para mim, valeria cada centavo. Estamos falando de um carro cujo motor nada oscila em marcha lenta, muito menos que tem “buracos na performance” enquanto se explora a banda de RPM. Por outro lado, para minha mulher e família, a ideia de colocar um carro de 20 anos de idade e 80 mil km rodados dentro de casa soa apócrifa. Para evitar maiores conflitos, achei melhor desistir, por hora, da loucura. Em outro momento da minha vida, certamente seria minha.

O mais sensacional quando se está a bordo de um carro desses é, como já dito, ter a chance de dirigir um mito. Muitos dizem que a experiência pode ser frustrante, pois são carros velhos e desatualizados. Curiosamente, os carros analisados que mais me encantaram nos últimos dois anos foram os meus heróis de infância. A Ferrari F355, o Porsche 911 Turbo 993 e o Audi RS2… todos incríveis!

Ao me aproximar da M3 E36 com claras intenções de levá-la para casa, acho que nunca senti tamanha euforia em toda a minha vida de fanático automotivo. Sentar naqueles bancos ///M, olhar aquele painel que transpira década de 90, a direção de três raios, ainda sem airbags, a posição de dirigir…

Juro que ia esperar um tempo para dirigí-la, mas, curiosamente, algo dentro de mim me disse para não perder a oportunidade. As chances de outra M3 E36 européia pular na minha frente novamente são remotas, a julgar pela idade do carro e por grande parte do público comprador nem sempre disposto a mantê-la “em forma”.

Assim que entro nela, passados alguns minutos, é chegada a hora de botar o 6 cilindros em linha da BM para funcionar. Quando se dá ignição em um carro dessa idade é como se você tivesse dois mini ataques do coração… um de antecipação se o carro irá ligar… e outro depois que está tudo funcionando.

Demoro alguns instantes para encontrar a posição adequada de dirigir. Curiosamente, mesmo a bordo da E36, você nota as origens da ergonomia até hoje presente nos carros ///M. A posição de dirigir é bem próxima do assoalho do carro. A direção é facilmente posicionada bem no centro do banco. Incrivelmente, esse carro, apesar de ser 1993, tem ajustes elétricos de banco e tudo FUNCIONA!!!!

Piso na embreagem, engato a primeira marcha e deixo ela deslizar para fora da loja. Vamos deixar ela respirar um pouco, dar uma “alongada” antes de esticá-la, afinal, ela está parada a um tempinho e a gasolina no tanque próxima da reserva. As marchas têm engates lisos e fáceis. A embreagem é bem leve e tem um curso longo para um carro esportivo, parece mais um carro de passeio.

Faço o retorno na avenida, ando mais alguns quarteirões até que a temperatura do óleo chegue no ponto certo. O farol a minha frente fecha exatamente na hora que noto a temperatura no ponto certo. É hora de ver como a M3 E36 alemã se comporta saindo da imobilidade. Elevo os giros de maneira mais contundente, mas sem exagerar, alivio a embreagem e lá vamos nós!

Pela idade do carro e pela característica dos motores ///M da época, giradores e com pouco torque em baixa, eu esperava bem menos. Os giros sobem com tremenda disposição, por volta dos 4000 rpms, o 3.0, 6 em linha, da BM acorda de verdade e você sente aquele ronco estridente clássico desse motor. Convém notar que o pico de torque, de 32,9 Kgfm, vem a 3900 rpms e o de potência, de 286 Hp, a 7000 rpms somente.

Para dar uma noção de comparação, a medida exata de performance da M3 E36 EURO 1993 é algo entre uma BMW 130i e uma BMW 135i (original, sem nenhum tipo de preparação). Agora, se você vai analisar um carro desses somente pela performance do carro em linha reta, você não sabe o que está perdendo. Para começo de conversa, a M3 E36 alemã tem o tradicional diferencial ///M, que confere uma precisão e um chão sem igual para o eixo motriz do carro.

A direção é completamente hidráulica, ou seja, nada de direção elétrica ou assistida. É você, e mais nada, no comando de para onde o carro vai. A resposta é extremamente direta, como esperava.

O carro como um todo veste o motorista. Não há aquela sensação de dimensões avantajadas demais para um ///M, como se vê nas M3 que sucederam a E36. A resposta do acelerador é incrível, é a síntese do que se entende por respostas imediatas.

A tocada do carro é envolvente do momento que você dá ignição. A experiência toda é centralizada no motorista e não no que o computador pode autorizar você fazer com um carro. Gostaria de dizer que, ao mesmo tempo, é um carro dócil. Não é. Entendam bem, o carro tem “0” assistências ou “anjos da guarda” eletrônicos. Na hora do “vamos ver”, você está sozinho.

Não é à toa que muitas M3 E36 alemã encontraram o caminho do cemitério automotivo. O carro é arisco e não tolera muito babaquices ou imperícia ao volante. É um carro que requer que você saiba o que está fazendo o tempo inteiro. São apenas 1460 Kgs, que dão ao carro um senso de agilidade incrível. Esse carro implora para ser dirigido fortemente, mas não perdoa sua falta de habilidade.

Se tenho que fazer uma pequena ressalva, eu não gostei dos freios. Achei pouco comunicativos, mas a julgar pela idade do carro, não estaria sendo justo. Talvez um jogo de pastilhas novas e uma troca de fluído de freio façam a diferença nesse aspecto.

CONCLUSÃO

BMW M3 E36 Korncars III

A verdade é uma só: para entender o quanto que as BMWs modernas perderam em carisma e alma, basta dirigir uma autêntica ///M da década de 90, da época em que os carros eram feitos manualmente por alemães focados e vendidos para compradores em busca de emoção dentro das calças ao conduzir um carro.

Dizem que ser nostálgico é ser chato, mas eu enxergo muito mais valor na tocada de um carro como uma M3 E36 1993 do que a bordo de uma M5 F10 2013. Há tantos elementos nas BMW ///M recém lançadas que as afastam da ideologia original da marca que nem sei por onde começar. Diria que o mais próximo que você pode chegar da sensação de pilotagem de uma M3 E36 alemã é com uma BMW 1///M.

Não estou dizendo de maneira alguma que os atuais BMW ///M são carros ruins, muito pelo contrário. Acho que são excelentes, mas diria que negligenciam o legado da marca. A partir do momento que uma mãe pode usar uma ///M5 F10 para levar sua criança na escola, você sabe que o veículo é um animal diferente daquele que era vendido para o purista atrás de “tocada” na década de 90. Infelizmente, o mercado não tolera mais esse tipo de comportamento adolescente.

MAS… como a esperança é última que morre, eu torço para que a BMW pare de olhar só para frente e para os lados na hora de construir ///Ms, mas sim que passe a examinar o que fazia de tão certo antigamente.

Performance em linha reta é algo que qualquer montadora consegue, no entanto, transmitir puro “prazer em dirigir”, isso não é para qualquer uma. A BMW orgulha-se do seu slogan e o divulga insistentemente. Talvez seja hora de o slogan voltar a ser filosofia e objetivo da marca quando produzir um carro.

Como fazer isso, entretanto, na era dos motores sobre-alimentados, com câmbios de dupla embreagem, adequando-se à normas de emissão de poluentes, a necessidade cada vez mais contundente de controles eletrônicos e pesos cada vez mais elevados, é uma grande dúvida para mim.

BMW M3 E36 Korncars II BMW M3 E36 Korncars IV BMW M3 E36 Korncars V

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6 comentários sobre “BMW M3 E36 – Um legítimo ///M

  1. Korn, você já teve a chance de pilotar uma E46? Já ouvi de donos de e46 que ela é um tanto “gorda, grande, desengonçada”. Se sim, faça um review dela. Valeu.

  2. “Quanto ao carro dirigido para esse post, tenho a felicidade e tristeza de informar que quase se tornou minha. ” Eu acho que aguentaria os conflitos só para ter o carro dos meus sonhos ahahahahahaha. Ela é linda demais!! Tem um ronco unico, infelizmente nunca pude dirigir uma, só de ver passando, mas fico admirado com a beleza dela. Ela é um carro que eu gostaria de ter daqui uns 3-4anos. Um carro para diversão e para a vida inteira. Belo texto korn, deu para passar o que é sentar e guiar a bela E36

  3. Gosto dos seus artigos assim, de maquinas “reais”, não apenas prototipos ou carros milionarios que saem do valor real, cobram a maior porcentagem pela marca, status e luxo apenas,.

  4. Discordo veementemente: prefiro infinitamente as mais novas… Os motores sobrealimentados têm má fama vinda do passado… quando sofriam demais com turbo lag, etc. Se você considerar que a nova BMW, se fosse apenas aspirada, teria um motor mais potente do que o desta E36 não dá nem para continuar a comparação. Respeito o saudosismo, eu mesmo sou saudoso por alguns carros, mas sou completamente a favor da sobrealimentação, por alguns motivos, o primeiro que é a forma mais eficiente de se tirar o máximo de um conjunto de propulsão. O turbo não pode ser atalha para se criar um motor potente, e os turbos da BMW estão longe de serem atalhos: eles pegam seus magníficos motores e adicionam magníficos e perfeitamente ajustados turbos… A 135i é uma delícia de guiar, bem mais gostosa do que a minha 130i… Mesmo motor, mas sobrealimentado. Segundo: todo carro turbo permite ao seu dono anos e anos de diversão no mercado de preparação. Os aspirados já não. Na verdade as únicas preparações de carros aspirados que fazem sentido é sobrealimentá-los… Muito melhor que já venham assim, preparados, de fábrica. Em termos de refinamento mecânico as novas //M, desde 2001, são superiores à E36 e melhoram à cada ano. Como disso, respeito o saudosismo, mas insinuar que a BMW está fazendo algo errado em sua divisão //M de hoje é um pouco de exagero. (não estou falando dos “//M” entre aspas como M135, M235… estes nãos são //M)

  5. Mas faltou eu dizer uma coisa!!! Falei muito do que discordava, que é apenas um aspecto do seu artigo… um aspecto mínimo na verdade!!! EU adorei cada linha do artigo! Parabéns!!! Deu uma vontade tremenda de pegar uma máquina dessas pra brincar durante os finais de semana… Bem mais divertida que a 130i e menos comportada 🙂 E uma LENDA!!!

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