Ferrari 355 – A fábrica de emoções

Existem alguns momentos na vida que são mágicos. Dirigir uma Ferrari, seja qual for o modelo, é um desses momentos, não pelos aspectos técnicos do carro em si, mas pelo que o carro transmite ao motorista.

Não importa quais carros você tenha dirigido ou seja dono, você pode até mesmo não ser um perfil de pessoa que compraria uma Ferrari, mas estar no controle do “cavallino rampante” é sempre algo único – é algo que transcende a experiência de apenas conduzir um carro esportivo.

Para mim, a Ferrari fabrica emoções e, dessa forma, quando eu entro em uma Ferrari, a única coisa que me importa é aquele sentimento de “algo especial”. Ao volante de um carro da marca, pouco me importa se existe algo que pode ser mais rápido, resistente ou eficiente.

A Ferrari é um daqueles carros que nasceu para colocar um sorriso na cara de quem está dirigindo e virar pescoços por onde passa – existe uma certa magia quando o carro desfila por ruas e avenidas – tenho minhas dúvidas se há outra marca que consegue o mesmo efeito. Uma Ferrari sempre será um carro inconfundível, distinto e único, seja ela de 2012 ou de 1972.

Em especial, sendo um adolescente apaixonado por carro na década de 90, a Ferrari 355 me marcou. Aquele V8 ecoando por São Paulo sempre me arrepiaram. Diferentemente de muitas de minhas preferências, que depois de alguns anos foram esquecidas, até hoje, quando ouço ou vejo uma 355, me bate um sentimento de nostalgia e vontade muito grande de ter uma!

Mesmo tendo a chance de dirigir uma série de carros excepcionais, me faltava conduzir uma 355 em “excelente estado” e, de preferência, equipada com o câmbio mecânico. Quando digo “em excelente estado” quero dizer um carro que esteja em condições impecáveis e devidamente cuidada como merece.

Infelizmente, a Ferrari 355 foi produzida entre 1994 e 1999, o que faz dela um carro de, no mínimo, 13 anos de idade. Além disso, é um carro esportivo com quase nenhuma assistência eletrônica, ou seja, é muito fácil encontrar um carro que tenha sido “recuperado” de uma lambança no volante ou, simplesmente, que tenha sido mal cuidado em termos de manutenção – esqueça, esse tipo de carro não é uma Ferrari 355.

Hoje, se eu tivesse que mapear Ferraris 355 em ótimas condições no Brasil, eu apontaria, no máximo, quatro ou cinco! Ainda bem que algumas delas estão com pessoas muito próximas a mim. Recentemente, uma dessas pessoas me levou dar uma volta em sua Ferrari 355 Berlinetta mecânica e, como a alma muito caridosa que é, me permitiu conduzir o carro… e que carro!

Aspectos Técnicos da 355


Antes de descrever para vocês a experiência em si, vamos contextualizar um pouco o que é a 355 em termos técnicos!

A 355 é uma Ferrari equipada com motor V8 na posição central, ou seja, entre a cabine e o eixo traseiro. O motor é 3.5 com 5 válvulas por cilindro, daí o nome do carro: “355”. Esse motor produz consideráveis 380 cvs a 8250 rpm; e 37,0 kgfm de torque a 6000 rpm, ou seja, é um carro que não gosta de brincar em giros baixos! Lembremos, estamos falando de um carro de 1994 e, nesse época, esses números eram suficientes para impressionar quaisquer concorrentes, aliás, até mesmo hoje em dia, são números de respeito.

O chassi é do tipo monocoque, tubular em aço, juntamente com barras anti-rolagem visando favorecer a rigidez do conjunto. O carro fica a pouquíssimos centrímetros do chão e é extremamente baixo, com uma altura total em relação ao solo de cerca de 1,17 metros. Tudo na 355 é feito em prol do centro de gravidade do carro ser o mais próximo do chão possível. O conjunto da 355 Berlinetta tem cerca de 1350 Kgs (considerando o carro sem fluído algum. Com fluídos pode chegar a cerca de 1440 Kgs).

Exceção feita às séries especiais Challenge e Fiorano, o carro foi produzido em três variantes: coupé (Berlinetta), conversível (Spider) e targa (GTS). Entre 1994 e 1996, os compradores da 355 somente podiam ter o carro equipado com o câmbio manual – os carros equipados com o câmbio manual denominados “F 355″. Em 1997, foi incluída a opção da caixa F1, derivada da tecnologia utilizada na Fórmula 1 (como o próprio nome sugere), que nada mais é do que a primeira geração de câmbio manual automatizado da marca para carros de rua – carros com essa caixa de câmbio são designados como “355 F1“.

Caixa de câmbio F1 – notem os paddles atrás do volante.
Em termos de performance tanto a F 355 e a 355 F1 fazem de 0 a 100 Km/h na casa dos 4,5 a 4,7 segundos, respectivamente, e atingem a velocidade máxima de 295 Km/h. O quarto de milha vem na casa dos 12 segundos altos a 13 segundos baixos – há variados resultados dos números de performance das diferentes versões da 355.

Finda esta parte descritiva do post, como eu sempre digo, a frieza dos números não faz jus à experiência de conduzir o carro, em especial, quando o assunto é Ferrari!

Berlinetta Manual Vs. Berlinetta F1

Entrando na 355

Interior de uma Ferrari F 355 Spider

O carro é baixo… muito baixo… se você estiver com algum problema de coluna, não vai ser divertido entrar no carro, rs. Além disso, a maçaneta fica em uma posição bem “para o fundo da porta”; para quem não sabe onde está, alguns segundos serão perdidos procurando.

Até aí, sua impressão sobre o carro deve ser de quão desconfortável e não prática a 355 deve ser. Engano seu. Uma vez que você entra e se acomoda no carro, a 355 é razoavelmente espaçosa e com uma visibilidade muito boa do que se passa ao redor do carro. Olho para frente e enxergo exatamente onde a frente do carro está. Olho no retrovisor e tenho a noção exata do espaço que estou ocupando.

Obviamente, não espere o nível de mimo e ergonomia que se encontra em uma Ferrari 458 ou em qualquer super esportivo moderno. A 355 é, na minha opinião, a última Ferrari com um “quê” de esportivo das décadas que antecederam o seu lançamento. Os bancos são rasos e pequenos. Você senta com as pernas quase completamente esticadas, enquanto que a direção fica bem próxima do seu corpo. Bem old school mesmo e muito agradável se você me perguntar.

O acabamento interno é com atenção primorosa aos detalhes, lembrando, é claro, nos carros onde este requinte ainda pode ser observado. No exemplar que tive a chance de testar, o couro claro é simplesmente da melhor qualidade, mas exige o máximo de cuidado, razão esta que faz o proprietário andar com com os bancos coberto por capas. Por dentro, este carro parece ter saído de um showroom da marca ontem. Olho para os painéis de instrumentos, revestimento do teto, couro nos bancos e portas – simplesmente incrível o estado de conservação  – o visual remete muito aos carros do começo da década de 90 – nostálgico!

Dirigindo a 355

A 355 é um daqueles carros que mesmo sendo um esportivo nato traz um prazer indescritível ao ser conduzida em baixas velocidades. Nunca na minha vida havia conduzido uma F355 equipada, como já antecipado, com o câmbio manual e esperava este momento há muitos anos, desde que comecei a entender uma coisa ou outra sobre carros.

É uma sensação muito nostálgica entrar em um super esportivo e ver aqueles três pedais, assim como aquela “grelha” para o engate das marchas. Carro funcionando… Vamos lá! Piso no pedal de embreagem, extremamente pesado, mas suportável, e preparo o engate da 1º marcha… Se olhando de fora o câmbio parece engatar como se fosse “faca na manteiga” nos espaços pré-definidos pela “grelha”, na prática, a manopla requer uma certa dose de firmeza e força para ser engatada! Uma vez acoplada a marcha e aliviada a embreagem, o carro começa a se movimentar.

Pode parecer uma coisa besta, mas desde moleque eu sempre sonhei com esse momento, então, a esta altura, estou meio que em êxtase. Conforme aquela sensação inicial começa a passar, não consigo deixar de reparar o quanto é diferente de tudo o que temos hoje em termos de carros esporte.

Atualmente, se não fosse pelo visual e desempenho, você não diria que dirigir um carro esportivo é algo trabalhoso ou extremamente diferente de um carro de passeio comum. Ao dirigir um carro como a F 355, você sente na pele o que era dirigir um carro esportivo puro na década de 90. A experiência, por falta de melhor palavra, é “mecânica”. O que isso quer dizer, afinal?

A cada pisada de embreagem, a cada cambiada de marcha, acelerada ou freiada, você sente o carro completamente. Tudo lhe é transmitido, seja pela manopla do câmbio, direção, chassi ou pedais. Realmente, descreve quão complexo é o processo de se conduzir um carro esportivo, que modernamente é auxiliado por uma série de assistências e anjos eletrônicos.

Uma pena que em prol de praticidade e utilidade, bem como da necessidade de se apelar para um público maior de consumidores, os carros esportivos modernos não conseguem mais passar essa sensação old school. Realidade seja dita, só pelo peso da embreagem da F 355, meu pai, por exemplo, seria incapaz de dirigi-la.

Você nota claramente que a F 355 não é um carro que vai tolerar “imbecilidades” ao volante. Todos os comandos que você dá ao carro necessitam de consciência e uma dose de esforço. Por essas e outras razões que eu começo a entender o que alguns proprietários me dizem quando falam que conduzir um carro como a F 355 pode ser cansativo sob tráfico intenso ou dentro de grandes centros urbanos.

Rápido ou devagar, você tem que estar atento o tempo inteiro ao que se passa no carro. Carece lembrar que, exceção feita aos freios ABS, a F 355 é um carro que conta com quase nenhuma assistência eletrônica. Não é a toa que muitas 355 encontraram o caminho do cemitério automotivo.

Porém, se por um lado dirigir um carro como a F 355 pode ser cansativo, é extremamente incrível por todas as sensações ao volante – tudo parece vivo e analógico. Se você andar em um carro moderno depois de dirigir uma F 355, tudo parecerá demasiadamente anestesiado e digital!

Curiosamente, eu esperava que a direção da 355 fosse ser muito pesada, afinal, os engates do câmbio e os pedais requerem uma certa dose de força, mas não, a direção é no peso certo (mais para o lado “leve” do que “pesado”) e altamente comunicativa, o que é excelente considerando que você está conduzindo tão próximo do solo e sem grandes assistências eletrônicas.

Realmente, se você busca só performance e desempenho, há infindáveis opções modernas mais adequadas, mas, se você busca sentir o que realmente foi dirigir um carro esportivo em décadas passadas, não há nada como uma F 355 – seja atravessando um túnel com o conta-giros “no talo” ou passeando moderadamente, ter aquele ronco embriagante na sua orelha o tempo todo (que na minha opinião está entre os dois melhores roncos da história das Ferraris de rua, atrás somente do da Challenge Stradale, variante de pista da 360 Modena) vale cada minuto dentro do carro – é sensacional.

Em termos de performance, chamar a F 355 de um carro lerdo seria uma blasfêmia aos deuses automotivos, afinal, são 380 cavalos e 37 Kgfm de torque, mas, hoje em dia, há carros de passeio mais rápidos. O carro acorda em altos rpms, ou seja, você tem que constantemente manter o carro girando forte para extrair o máximo.

Agora, sinceramente, com uma F 355 você não deve ficar preocupado se o cara do carro do lado é mais rápido – dificilmente o carro emparelhado, por mais rápido que seja, será mais “esportivo puro-sangue” que a sua F 355. Em termos de prazer ao dirigir, a F 355 está entre os melhores carros que eu já testei, especialmente por causa do câmbio manual, da posição de dirigir e do ronco!

Obviamente que jamais testaria uma F 355 que não é minha sob condições de extrema pilotagem, mas, ainda assim, você nota que apesar da ausência de assistências eletrônicas, o carro é altamente plantado no chão (não sei se as coisas são assim em velocidades acima dos 200 Km/h). Justamente pelo carro ser altamente comunicativo e requerer  esforço para ser acelerado e freiado, só se o motorista ignorar por completo o que o carro está querendo passar para fazer uma bobagem no volante.

Como bom esportivo da década de 90 que é, a F 355 tem que ser respeitada. Dizem que os freios são facilmente suscetíveis à fadiga (brake fade), mas, se você vai colocar isso a prova, não compre uma F 355 – ficamos muito mal acostumados com os freios dos esportivos modernos.

Uns dizem que a 355 é um carro desconfortável, duro e barulhento, tornando-se cansativa de conduzir por muito tempo. De fato, os pedais são pesados, em especial o de embreagem, mas a direção é razoavelmente confortável de se manusear. O carro pode ser baixo e ter sérios problemas para se contornar valetas ou lombadas, mas quando o assunto é filtrar irregularidades do asfalto, eu esperava um carro com “batidas secas”, mas, muito pelo contrário, o carro cumpre muito bem o seu papel nesse sentido, passando sem grandes chacoalhadas, claro, desde que devagar.

Diria que trafegando por avenidas largas e ruas com asfalto irregular, a 355 não vai incomodar quem está dentro. Comparado a alguns carros modernos equipados com pneus run-flat, eu diria que a 355 consegue até mesmo ser um pouco mais suave, rs.

Estacionando o Carro

Ainda em êxtase por ter realizado um sonho de infância ao ter dirigido uma F 355, é somente quando estaciono que reparo quão lindas são as linhas do carro. Sei que isso pode ser muito subjetivo, mas ainda estou para ouvir de alguém que a F 355 é um carro feio.

O jeito como ela fica em relação ao solo, a forma como o design Pininfarina mescla linhas curvilíneas com retas é simplesmente sublime. Você se dá conta de quanto as Ferraris modernas cresceram e parecem carros “gordos” ou “bolados” (como alguns dirão), quando observa a 355. Sem dúvidas, na minha opinião, a F 355 é um carro de tirar o fôlego. É um carro que transpira sua personalidade em cada ângulo de sua carroceria.

Nota-se claramente a influência dos modelos que a precederam. A lateral claramente me lembra a 348, Testarossa e as variantes 512, porém, com o pé no futuro, ao incluir mais curvas, que viriam a ser a tendência da marca para os modelos futuros.

Mesmo sob pena de ser crucificado publicamente eu diria que se a 355 fosse lançada hoje, ainda mais nessa onda de designs retrô, o carro continuaria a ser magnífico e claramente se destacaria.

Conclusão

Sonho realizado. Da minha lista de coisas para fazer antes de morrer posso dizer que risquei um item, como diria o Tenente Coronel Slade do filme Perfume de Mulher. Sem expectativas frustradas, o carro é exatamente o que eu sempre imaginei e continua sendo um dos meus carros favoritos. Pode não ser o carro mais rápido ou mais eficiente em todos os aspectos, mas, por outro lado, é exímio em fazer o condutor se sentir especial. Existe uma cena do filme acima que sumariza muito bem o é que conduzir uma Ferrari:

Definitivamente, na minha modesta opinião, a Ferrari 355 tem potencial para ser um carro admirado por futuras gerações como parte da história dos carros esportivos e, talvez, como uma das Ferraris mais emblemáticas da era moderna.

Se você gosta de carro esportivo, não desista até conseguir andar em uma Ferrari 355, em especial, com os vidros abertos e com os giros em altos rpms dentro de um túnel. Em termos de sensação ao volante, é uma experiência única. Nessa hora você esquece qualquer outro carro.

Eu queria poder dizer para todos vocês aí que eu recomendaria a compra de uma dessas hoje em dia, mas não posso. Não pelo carro em si. Se você procurar uma tocada da velha guarda, junto com um ronco e design sublime, muito provavelmente a F 355 cairia como uma luva, mas, infelizmente, comprar uma dessas exigiria um esforço incrível de procurar e achar o carro certo.

Hoje em dia, uma 355 tem preços entre 230 mil e 330 mil, mas sem um histórico completo do carro, abraçar a compra seria mergulhar em mar de dores de cabeça. Grande parte das 355 em solo nacional foram muito mal cuidadas por seus antigos proprietários, que, muitas vezes, foram mais de 10 para um único carro, sem prejuízo de terem sido batidas e ocultarem danos estruturais irremediáveis.

Antigamente, cheguei a ver 355 nas mais variadas cores, tais como verde, branca, prata, preta ou azul –  a maioria desses carros hoje é vermelha ou amarela.

Os carros realmente impecáveis não tem o mesmo preço de mercado que a infinidade de 355’s anunciadas por aí, custam merecidamente mais por todo o trabalho e dedicação dos seus proprietários com seus respectivos veículos. Jamais compre sem fazer uma vistoria completa no carro de seu interesse e não se deixe enganar por carros meramente anunciados por um preço maior que a média do mercado.

Não vejo a hora desse carro fazer 30 anos de idade e poder ser importada restaurada de colecionadores norte-americanos e europeus. Com um pouquinho de sorte, se eu tiver juntado uns bons trocados em alguns anos, vou tentar importar uma dessas para mim. É definitivamente um carro esportivo que eu gostaria de ter.

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