“CONFIABILIDADE” DOS CARROS MODERNOS

Outro dia, em um conversa com um grande amigo, o William Raphael, do EnB, começamos a discutir um tema controverso: a confiabilidade dos carros modernos.

Já não é de hoje que algumas marcas sempre foram mais notórias por serem menos confiáveis. Notem, não estou questionando se os carros eram envolventes, divertidos ou bons de tocada, mas tão apenas falando sobre o quesito “confiabilidade” ou “reliability” (em inglês, onde o termo é mais conhecido).

Por exemplo, proprietários e fãs de Porsche sempre se orgulharam do fato de que os carros da marca eram mais confiáveis do que as Ferraris.

Ferrari 458 Itália pegando fogo korncars

Porém, hoje em dia, fabricar carros com problemas não é mais uma exclusividade das montadoras italianas.  Obviamente, em 2010, a Ferrari foi vítima das mais variadas piadas devido aos casos de incêndio com a 458 Itália. Porém, tanto a Mercedes Benz e Audi também tiveram problemas desse tipo com o lançamento de seus esportivos (SLS e R8, respectivamente); e a Porsche também não teve muito tempo para “curtir o momento”, pois a geração 991 do 911 teve também suas “maçãs podres” culminando com o recall massivo do recém-lançado GT3.

Porsche 991 pegando fogo korncars

Mercedes Benz SLS pegando fogo korncars

Audi R8 pegando fogo korncars

Agora, engana-se que pensa que os problemas de projeto são algo recente na história automotiva. Para não estender demais o tema, vou me restringir aos últimos 25 anos. Na década de 90, tínhamos no Brasil o importado Fiat TIPO, que adorava pegar fogo, tendo inclusive sido meu avô um daqueles felizes proprietários que viu seu carro flamejar. Havia também as Alfas Romeo 164, que adoravam uma oficina. Como último exemplo, para não ignorarmos os tão “confiáveis” alemães, a BMW série 5 E34 com motor V8 sofria terrivelmente com o enxofre da nossa gasolina e muitas tiveram mais de um motor trocado (como a que pertenceu a um familiar muito próximo a mim).

 

Fiat Tipo korncars

BMW 540i E34 korncars

A realidade é uma só: os defeitos ou problemas de projeto sempre foram presentes na indústria automotiva e engana-se que pensa que isso era exclusividade dos carros mais baratos. Porém, na minha opinião, creio que essas circunstâncias vêm se intensificando após os anos 2000 e ainda mais nos últimos anos.

Um contra ponto do meu grande amigo, William, é que a internet mudou muito as coisas. De fato, o acesso à informação, hoje em dia, tem muito menos filtros e é em tempo real. Se um carro pega fogo ou tem algum problema bizarro do outro lado do mundo, em questão de minutos estará nos sites especializados. Concordo com esse argumento, porém, realmente não acredito que seja somente uma questão de acesso à informação.

Acredito que a tecnologia, apesar de uma grande benesse, é uma faca de dois gumes. Vejam bem, especialmente nos últimos 10 anos, os carros fizeram uma transição entre serem máquinas essencialmente mecânicas e analógicas, para tornarem cada vez mais eletrônicos e digitais. São incontáveis quilômetros de fios dentro de um carro, interconectando os mais variados cérebros eletrônicos nele presente – é a central que controla o ABS, controles de estabilidade e tração, acertos de suspensão, formas de condução, juntamente com todas as demais amenidades e luxos que um carro moderno precisa ter.

Sim, os processos de fabricação são mais automatizados e o fator humano é demasiado reduzido, porém, a quantidade de itens e testes que devem ser feitos para verificar que os carros funcionem de acordo com as especificações de fábrica são muito mais complexos e numerosos. São inúmeras centrais eletrônicas que devem conversar entre si assim que o carro fica pronto. Aliás, não somente quando o carro fica pronto, mas por anos a fio (pelo menos até o final da garantia).

Não me entendam errado, apesar de ser um grande admirador das tecnologias modernas, é um tipo de engenharia que luto para compreender como funciona sendo um cara comum. No caso da engenharia eletrônica, estamos falando de mecanismos que funcionam conforme programado, teoricamente, sem prazo de validade para que as coisas dêem errado, até que uma hora elas dão, e lá está o famoso “código de erro” (quando ele aparece). Pense no seu computador, há horas em que simplesmente as coisas começam a dar errado, especialmente quanto mais velho ele fica.

Quando lidávamos essencialmente com tecnologias mecânicas, por outro lado, mesmo sendo leigo, era possível compreender como as coisas funcionavam mais facilmente – é uma engrenagem que se conecta em outra e vão funcionar conjuntamente até que uma delas desgaste e quebre. Desgaste, por sua vez, é algo que é previsível. Pode ser precoce algumas vezes, mas você consegue entender a origem e a causa do problema.

Hoje em dia, são as tecnologias digitais e eletrônicas que fazem um carro ter 500 tipos de massagem para os passageiros do banco traseiro, mas ter um código de erro escondido que faz um câmbio ter que ser reprogramado completamente com dois anos de uso e pouco mais de 10 mil quilômetros rodados. Como? O que causou isso? Nessa altura, você deve pensar que uma máquina de diagnóstico encontraria a causa facilmente, porém, não foi isso que aconteceu. A solução, obviamente, resolveu o problema, mas ninguém consegue explicar como ou da onde ele veio.

É a tecnologia moderna que controla sistemas de amortecimento de SUVs. Um belo dia você acorda, desce na sua garagem, dá ignição em seu lindo carro 2013 e vê o carro inclinar completamente para a esquerda. Por quê? Qual a causa do problema? Sim, um software enloqueceu e fez o SUV ficar inclinado, mas qual o software e o porquê?

São os incontáveis sistemas eletrônicos que fazem carros novos, da noite para o dia, ficarem parados como se fossem pesos de papel, sem nenhum problema mecânico aparente. Talvez porque seja necessário atualizar o software com os códigos de fábrica novos, pois a licença do programa expirou…

Minha conclusão é que os carros modernos vão sempre exigir cada vez mais tecnologia, talvez até o ponto em que dirigir seja considerado um ato pré-histórico do século 20. A pressão por novas linhas e novos modelos faz com que as montadoras acelerem o lançamento de novas gerações cada vez mais, recheando carros com novas tecnologias que talvez exijam mais tempo de teste antes de serem montadas em escala.

Concordo que há muito pouco que se possa fazer nesse aspecto. Mesmo que se atinja um patamar de confiabilidade bacana quanto a uma determinada tecnologia é bem possível que, até lá, ela já esteja obsoleta e tenha sido substituída por outras que ainda carecem de mais testes para poderem ser implantadas em escala.

Por outro lado, como a marca lida com o problema, isso sim, é algo que precisa ser observado e elogiado. Felizmente (ou infelizmente), eu não sou pago por nenhuma montadora para falar mal ou bem dos seus produtos, o que me dá certa neutralidade para falar sobre o assunto. Há marcas que vão reconhecer o problema e tomar todas as medidas necessárias para resolvê-lo da maneira menos danosa aos seus consumidores. Porém, há outras que simplesmente vão se negar a reconhecer a necessidade de um recall, deixando os proprietários correrem riscos de vida, ou que simplesmente vão dizer que o problema se deve ao mau uso e assim negando cobertura da garantia.

Portanto, pouco pode-se fazer sobre a realidade da implantação de novas tecnologias em tempo recorde e os problemas que isso traz. Porém, muito se pode fazer a respeito de como as marcas conduzem a solução para os problemas e tratam seus clientes.

 

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2 comentários sobre ““CONFIABILIDADE” DOS CARROS MODERNOS

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