O que é boa dirigibilidade?

As pessoas mais próximas de mim sempre me perguntam a razão da minha paixão platônica por carros da década de 90 e eu sempre me pego dizendo que a dirigibilidade dos carros esportivos desta época é simplesmente sublime.

Vejamos alguns exemplares desta década tão notória: Audi RS2, Audi RS4 (b5), BMW M3 E36, BMW M5 E34, BMW M5 E39, Ferrari 355, Honda NSX, Porsche 911 993, Toyota Supra etc. Mas, afinal de contas, o que esses carros tinha de tão especiais? Eram carros que estavam na vanguarda da tecnologia da época, mas os poucos controles eletrônicos (estabilidade, frenagem e tração) ainda serviam como meros “anjos da guarda” para os mais afobados e, mesmo assim, não eram os protetores mais eficientes!

A década de 90 remonta uma época onde um carro bom não precisava de computadores tão avançados como os que levaram o homem a lua para serem dirigidos. As potências não eram tão colossais se comparados aos padrões atuais, em outras palavras, a barreira dos 400 cvs era um tabu. Obviamente que do alto dos meus 27 anos, eu teria que ser muito mentiroso para falar que dirigi todos os carros que mencionei no parágrafo anterior, mas o pouco de experiência que tive com alguns desses modelos me marcou muito e ensinou as premissas básicas sobre o que entendo ser um carro com boa dirigibilidade!

 
A ORIGEM DO TERMO “DIRIGIBILIDADE”

Acho que antes de abordar quais características eu julgo essenciais para um carro ter uma boa diribilidade, preciso esclarecer do que se trata este termo. Se eu tivesse que ir atrás de uma origem, eu chutaria que provavelmente vem do termo em inglês “drivers’ cars”, comumente utilizado para designar carros cuja condução é completamente voltada para experiência do motorista ao volante.

Notem, não estou falando sobre conforto ou ergonomia na condução do veículo, mas sim do quanto um carro pode envolver o motorista no processo de condução. Quanto mais o carro transmite ao motorista o que está se passando enquanto dirige, maior a possibilidade do carro ter uma boa dirigibilidade.

Não sei vocês, mas eu gosto de saber exatamente o que se passa com o carro quando eu estou conduzindo, especialmente se for de maneira mais agressiva. Gosto de ter a sensibilidade a respeito do que está acontecendo com o carro em todos os aspectos, não pela simples razão de me considerar praticamente um piloto (estou muito longe disso), mas sim por considerar essa uma ótima forma de prevenir “burradas” ao volante!

Tendo este conceito em mente, acho que agora posso começar a falar das características que julgo imprescindíveis para uma boa dirigibilidade.

DIREÇÃO PRECISA E DIRETA

Acredito que este aspecto seja o primeiro sinal de um carro com boa dirigibilidade, afinal, é a direção que determina para onde o carro vai. Nesse sentido, direções vagas, imprecisas ou com folga, como normalmente encontradas em veículos mais luxuosos, são um primeiro pecado contra boa dirigibilidade!

Particularmente, eu gosto muito quando eu preciso virar muito pouco a direção para já sentir a ação do eixo dianteiro apontando na direção que eu pretendo ir. Basta um pequeno e singelo toque para o veículo já mudar de sentido.

Hoje em dia, o mercado de veículos parece estar inundado com direções com auxílio elétrico, que até conseguem um bom efeito prático em termos de emular a sensação de uma direção direta e precisa, porém, na minha opinião, esse tipo de sistema carece de algo imprescindível para uma boa dirigibilidade – SENSIBILIDADE.

Não basta apenas emular os efeitos de uma direção precisa e direta! É necessário que o motorista tenha sensibilidade sobre o que acontece com as rodas dianteiras. Nesse aspecto, ainda estou para ver um sistema com auxílio elétrico que consiga comunicar perfeitamente o que se passa na frente do carro, e não pensem que esse papel é somente das molas e amortecedores.

A direção que já é direta e precisa, porém, com o sistema hidráulico, é simplesmente perfeita nesse aspecto, porque não somente responde prontamente aos comandos do motorista, como também tem peso e sensibilidade suficientes para mostrar o tipo de aslfato sobre qual se está dirigindo. Quando a direção consegue passar a mensagem para o motorista que se está trafegando sobre ondulações ou irregularidades, as chances de um acidente reduzem consideravelmente.

A direção em um carro com boa dirigibilidade deve ser os olhos, ouvidos e o tato do motorista. Deve ser um instrumento preciso e, para isso, não basta ser somente direta, como também transmitir ao motorista o máximo de informação que ele precisa para dirigir esportivamente.


RESPOSTA DO ACELERADOR

Antigamente, os aceleradores dos carros eram a cabo e o que isso significava? RESPOSTAS INSTANTÂNEAS. Bastava você encostar o pé no acelerador para ter a contrapartida do motor. Porém, com os avanços tecnológicos, tornou-se necessário evoluir, mas nem sempre isto significa melhorar.

Aos poucos foram sendo introduzidos os aceleradores controlados por sistemas eletrônicos, que vieram mais tarde a tirar de cena os bons e velhos cabos! Ou seja, o que antes era um impulso mecânico do motorista, que gerava uma resposta imediata do motor, foi substituído por um emaranhado de fios e relês.

Não que isso por si só tenha sido algo ruim para a indústria automotiva. Pelo contrário, a adoção desse tipo de sistema é muito salutar, afinal, permite ao motorista regular a resposta do acelerador ao ânimo da condução. Porém, quando eu estou dirigindo agressivamente, eu gosto de saber que estou completamente no controle.

Eu não quero um maldito sistema eletrônico pensando “será que ele quer realmente ir mais rápido ou apenas cutucou mais incisivamente o acelerador para uma ultrapassagem”, eu não quero que o computador comece a brincar de psiquiatra tentando adivinhar o que eu pretendo fazer… eu sei o que eu quero… apenas quero que o sistema execute, mas o dom de adivinhar o que se passa na cabeça dos seres humanos ainda não é uma habilidade que qualquer tecnologia tenha (espero eu).

Por isso, para mim, não há nada que substitua a resposta obtida com o bom e velho cabo do acelerador. Nesta altura você pode até estar pensando que eu estou exagerando e que os carros esporte de hoje permitem escolher ajustes de condução que otimizam a resposta do acelerador para máxima performance, porém, andei dirigindo carros esportivos nas configurações mais agressivas possíveis e ainda assim me vi esperando o maldito acelerador eletrônico meditar sobre as minhas intenções.

CÂMBIO MANUAL

Se você tem lido os últimos posts deste blog sabe muito bem que eu sou sempre o primeiro a elogiar caixas de câmbio de dupla embreagem por sua eficiência, precisão, rapidez e, especialmente, pelo incremento de rendimento dos carros equipados com essa caixa – é o futuro! É lindo e maravilhoso, mas eu não consigo parar de olhar para o passado e olhar nostalgicamente para a boa e velha embreagem juntamente com um câmbio de engates curtos e precisos.

Originalmente, dirigir sempre teve uma íntima relação com o terceiro pedal da esquerda e a manopla do câmbio ao lado do condutor. O automobilismo, por décadas, se apoiou em câmbios manuais. Obviamente, que a máquina evolui e nenhum ser humano consegue cambiar na velocidade de uma caixa semi-automatizada.

No entanto, quando o quesito é dirigibilidade, nada supera a sensação de fazer um belo punta-tacco, de reduzir uma marcha, apontar o carro em uma curva e sair afundando o pé! Se já não bastasse esse singelo prazer, temos que lembrar que tirar bom desempenho em um carro manual, mesmo em linha reta, sempre foi uma experiência recompensadora. Nada melhor que emparelhar com um amigo seu com um carro mais potente e deixá-lo para trás por causa da forma como você troca as marchas.

Controles de largada???? Pfffff, com o bom e velho câmbio manual, você tinha que ser bom para fazer uma boa arrancada. Se segurasse a embreagem até o final e o acelerador também, quando tirasse o pé de embreagem, você corria um risco sério de pagar um mico, levantar fumaça e não sair do lugar!

Existe maior expressão do controle de um motorista sobre um carro do que um bom velho câmbio manual? Na minha opinião, NÃO; e como para mim dirigibilidade é sinônimo de controle completo sobre o carro, nada mais natural que este tipo de câmbio seja a minha escolha predileta (ainda que em extinção).

CHASSI RÍGIDO E PESO REDUZIDO

Carro com boa dirigibilidade tem que ser leve e tem que ter um chassi rígido o suficiente para suportar muito bem as mudanças de direção, caso contrário, a resposta do veículo fica lerda…letárgica…e, consequentemente, a dirigibilidade é ruim.

Hoje em dia, o mercado de carros esportivos é como se fosse aquele atleta que chega na fase final da carreira e começa a ter que lutar contra o ganho de peso. Com o passar dos anos as exigência de segurança fazem com o que os carros cada vez mais mergulhem na dieta dos controles eletrônicos, cada vez mais complexos. A cada geração de um veículo, novas tecnologias surgem e, por consequência, novos sistemas mais eficazes e PESADOS.

Portanto, enquanto luta-se por utilizar materiais cada vez mais leves na confecção de chassis, componentes de carrocerias, rodas etc., na vertente diametralmente oposta, surgem novos sistemas de segurança que terminam por adicionar peso aos veículos. Ou seja, um círculo vicioso. É como se fosse uma lipoaspiração, só que ao invés de jogar a gordura da barriga em excesso fora, você a reimplanta na bunda!

Quanto mais pesado e potente um carro esporte, mais necessários são os “anjos da guarda” eletrônicos, que, por sua vez, agregam mais peso ainda. Quanto mais controles eletrônicos, menos o motorista está envolvido no processo de dirigir e mais os sistemas do veículo tomam controle, logo, pior a dirigibilidade!

Por exemplo, quando eu vejo um Bentley Continental GT ou uma Mercedes Benz S65 AMG eu não consigo chamá-los nem ao menos de carros esportivos, afinal, é tanto peso e controles eletrônicos para fazer o carro performar que chega a desafiar o próprio propósito de dirigí-los esportivamente. Claro que são ótimos veículos, mas eu pergunto: que tipo de envolvimento o motorista pode ter ao dirigí-los? É contrário às leis da física que carros desse tipo consigam andar tão bem sem controles eletrônicos, afinal, ambos tem quantidades massivas de torque e cavalaria juntamente com mais de duas toneladas de peso.

MB S 65 AMG

Nesse ponto, minha conclusão é bem simples. Um carro leve e com um chassi rígido deve ser capaz de colocar a potência no chão com primazia e envolvendo o motorista por completo no processo. Os controles eletrônicos devem ser o último recurso, como uma proteção para impedir acidentes. Sem esses ingredientes, a receita da dirigibilidade ficará comprometida. O carro não pode depender essencialmente dos “anjos da guarda” eletrônicos para despejar potência com segurança, é preciso ser equilibrado!

ASPIRADO OU SOBREALIMENTADO?

Este é um aspecto delicado demais! Existem legiões que defendem os sobrealimentados e outros, mais puristas, que não abrem mão de um bom motor girador aspirado.

Os carros podem ser sobrealimentados por turbo ou supercharger. Para não me alongar demais em explicações sobre como um ou outro sistema funciona, basta dizer que ambos trazem um incremento de potência e torque mediante indução forçada de gases na câmara de combustão do motor. O resultado prático é que você consegue números de potência e torque em motores pequenos que são equiparados aos números de motores aspirados muito maiores.

O grande malefício da sobrealimentação é que ela prioriza a disponibilização de torque e potência em momentos muito singulares. No caso dos turbos, existe o famoso “lag”, que é aquela famosa faixa de rotação onde o motor funciona como se fosse um mero aspirado até que a turbina “encha”, quando de repente o carro dá um pulo, despejando toda a sua força sobre o aslfato. No caso do supercharger ou compressor mecânico, o impacto é imediato, praticamente não há “lag”, porém, o carro fica muito limitado em rotações mais elevadas. Em suma, fora da faixa ótima de rotação do motor, os carros sobrealimentados tendem a ser muito limitados.

Por outro lado, carros aspirados esportivos tendem a ter uma alta potência específica, porém, as custas da necessidade de um motor de alto giro. Em curtas palavras, os carros aspirados com alta potência específica tendem a precisar de muito giro para performar da melhor maneira, embora sacrifiquem torque em baixas rotações. Por outro lado, os aspirados com grande capacidade cúbica (leia-se: motores grandes), tendem a ter potências específicas menores, mas com grandes quantidades de torque em baixas rotações.

Olhando estritamente para o critério dirigibilidade, o qual entendo ser a maneira como o veículo deixa o motorista no controle de tudo o que está passando durante a condução, eu tendo a inclinar-me por um bom e velho motor aspirado, simplesmente porque a entrega de potência e torque se dá de maneira gradual. As curvas de potência e torque em um aspirado tendem a ser mais planas, enquanto que no turbo essas curvas tendem a ter picos específicos e contundentes.

Obviamente, isso não implica dizer que carros sobrealimentados são ruins em termos de dirigibilidade, muito pelo contrário, há uma série de carros sublimes em termos de dirigibilidade que são turbinados. Sinceramente, é muito mais uma questão de gosto pessoal nesse aspecto.

FRENAGEM

Uma vez fui indagado por um amigo como é que eu conseguia ser tão “pentelho” com relação a esse aspecto. Segundo ele, freio bom é o freio que é capaz de parar o carro da maneira mais rápida e eficiente. Não tiro nem ponho nada neste argumento, mas defendo contundentemente que o pedal de freio deve ser o mais comunicativo possível.

Primeiro, pedal de freio não pode ser leve em carro esportivo. Tem que ser pesado para que o motorista possa ter ciência do esforço necessário para parar o carro. Não há coisa que me irrite mais neste aspecto do que pedais de freio que precisam de pouco ou nenhum esforço para pararem o carro. Cria-se uma falsa impressão de que não importa o que aconteça o carro sempre vai parar rápido e facilmente. Isso é bom até a hora que se ultrapassa o limite do carro e um acidente acontece.

Segundo, pedal de freio deve responder ao mínimo comando do motorista. Tem um teste que eu gosto muito de fazer que é entrar no carro com um tênis de solado grosso e quando o carro estiver em movimento começar a frear utilizando movimentos do meu dedão. Se a resposta do sistema aos comandos do meu dedão são evidentes estamos no caminho certo!

Por último, a frenagem de um carro com boa dirigibilidade deve ser precisa, ou seja, o carro tem que parar sem titubear, chacoalhar ou perder o controle. Até aqui tudo bem, acho que isso é o mínimo que se espera de um carro esportivo de ponta. Mas quando digo que os freios precisam ser precisos, me refiro a capacidade que o freio deve ter de transmitir ao condutor a sensação exata de onde o carro vai parar.

FATORES QUE IMPORTAM MUITO POUCO PARA UMA BOA DIRIGIBILIDADE

Sempre me perguntam qual a configuração perfeita para um carro de ótima dirigibilidade e eu sempre respondo que vai do gosto do motorista. Há excelentes exemplares em todos os tipos de configuração. Até mesmo a distribuição de peso entre os eixos dianteiro e traseiro pode significar pouco em termos de dirigibilidade. Vamos ver alguns exemplos de carros com ótima dirigibilidade:

Motor dianteiro com tração dianteira: HONDA CIVIC SI.

Motor traseiro com tração traseira: PORSCHE 911 GT2 RS.

Motor central com tração traseira: FERRARI 430 SCUDERIA ou, até mesmo um PORSCHE CAYMAN.

Motor central com tração integral: AUDI R8 (V8 ou V10).

Motor dianteiro com tração traseira: BMW M3 (de qualquer geração).

Motor dianteiro com tração integral: NISSAN GTR (embora meio pesado e com muita eletrônica) ou MITSUBISHI LANCER EVOLUTION.

Em última instância, você poderia também ignorar tudo o que eu disse! Sabe por que? Porque um carro que pode ter uma ótima diribigibilidade para mim, pode não ser lá essas coisas para você. Porém, depois de algum tempo dirigindo alguns carros e após muitas conversas com gente como eu, acredito que os quesitos descritos acima são fundamentais para definir o  legítimo “driver’s car”, aquele que melhor envolve o motorista.

A verdade é que hoje em dia muitos motoristas passam por verdadeiros “super-heróis” atrás do volante dos seus respectivos carros esportivos…são reduzidas infernais dentro de túneis, simulando um bom e velho punta-tacco; são tempos em pistas dignos de carros de competição de alguns anos atrás… coisas antes impensáveis em carros de rua, mas que hoje estão aí e se tornaram fator comum entre os grandes carros esportivos disponíveis.

Apesar dos pesares, temos que agradecer um pouquinho todos esses sistemas eletrônicos, pois, além de protegerem os condutores contra as mais variadas situações de perigo, permitem curtir com muito mais sossego os limites dos carros esportivos modernos. Uma pena pelo sacrifício da experiência com um todo, afinal, se antes levaríamos anos para dominar um bom esportivo, hoje, em alguns meses, o carro está na mão!

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2 comentários sobre “O que é boa dirigibilidade?

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