FERRARI F12 BERLINETTA – A MELHOR FERRARI DA MINHA VIDA

Ok, o próprio título é meio sugestivo do que eu achei da F12 Berlinetta. A essa altura você deve estar pensando: “mas, porra, você pegou o topo da cadeia alimentar da marca, né?” E você está certo em fazer tal constatação, pelo menos, em parte.

Se você olhar em perspectiva a proposta da F12, trata-se de um carro com motor dianteiro e tração traseira. Em suma, é o que convencionamos chamar de GT, um carro que caí na mesma categoria Bentley Continental e Aston Martin DBS, dentre outros. Não deveria, no papel, ser um carro para aqueles procurando por agressividade na tocada ou interação dinâmica. Seria um carro voltado a pessoas mais amadurecidas, interessadas em ter uma Ferrari sem passar pela crise de meia idade e que querem cobrir longas distâncias com desempenho de sobra de maneira confortável.

No entanto, eu nunca consegui ignorar a comparação com o Lamborghini Aventador. Na proposta mais clássica, teoricamente, não seriam competidores. No quesito preço, entretanto, são perigosamente próximos.

Vamos olhar outros aspectos: ambos os carros são italianos; modelos topo de linha (vamos ignorar as versões semi-pista ou edições limitadas por um momento); e usam motores V12 aspirados.

Se você tem uma batelada de dinheiro para gastar em um carro desses, obviamente, você colocou a F12 e o Aventador em comparação. Agora, em termos de perfil comprador, são duas propostas bem diferentes.

O Aventador é uma obra de arte visual automotiva. Não há um ângulo ou parte do Aventador que não pareça ter sido feito para entrar para história. Motor central ainda é um apelo. Portas que se abrem para cima, mesmo hoje em dia, tem um coolness factor absurdo. Pouco importa a cor que você escolher o seu Aventador, você será o centro das atenções.

Por outro lado, você olha para a F12 e vê o motor ali na frente, como na maioria dos carros. As portas abrem-se antiquadamente para os lados, do modo mais tradicional. Se você comprar uma F12 em qualquer cor que não seja amarelo ou vermelho, você certamente passará despercebido.

Agora, se visualmente a personalidade dos carros é meio inconfundível, pendendo para o lado emocional e agressivo das coisas, você juraria que o Aventador seria tração traseira, mas não é assim que acontece. O papel de ter uma traseira cintilante fica a cargo da Ferrari.

Bom… pelo menos o V12 da Lambo é mais potente? Errado, o 6.3 V12 da F12 rende 740 cvs a 8250 rpms e 70 Kgfm de torque. Ambos números a colocam a frente do Aventador.

Será que o Aventador é mais leve? Também não. Tração integral pesa! A F12 Berlinetta pesa 1620 Kgs com fluídos, enquanto que o Lambo pesa 1731 Kgs, ou seja, 100 kgs mais pesado.

A Lambo é do grupo VW/Audi, então, certamente o câmbio é de dupla embreagem, certo? Também não, o câmbio do Aventador é automatizado de embreagem simples. Câmbio de dupla embregem de 7 marchas só há na comportadíssima Ferrari.

Ou seja, lembra-se de quando lhe disseram que não deve julgar o livro pela capa? Esse é um daqueles clássicos exemplos que o visual mais comportado da Ferrari não entrega o quanto ela está a frente da Lambo em desempenho. Agora, para mim, pouco me importa se no papel a Ferrari parece mais interessante se, na prática, ela deixar a desejar.

A mídia internacional especializada diz que a F12 é simplesmente um carro muito agressivo para as vias públicas se provocada.

Eu queria muito ver se eu conseguiria lidar com a F12 na vida real!

Vamos ao teste!

A BORDO DA F12

Por dentro do topo de linha da Ferrari, não nada a pontuar exceto a incrível qualidade de construção e dos materiais utilizados. Desde a 458, na minha opinião, a Ferrari deu um salto qualitativo absurdo nesse aspecto. A diferença a bordo da F12 comparativamente aos modelos de motor central V8, no entanto, está no espaço interno. É marginalmente mais espaçosa do que as Ferraris menores.

Os bancos são extremamente confortáveis e os ajustes de direção são ótimos. Essa é uma Ferrari que se adequa muito bem a motoristas que tem tamanho avantajado, sem nenhum tipo de restrição clássica que se esperaria de um super carro. Aliás, nem poderia, devido a proposta GT do modelo.

A única coisa que ainda me incomoda um pouco é a quantidade de comandos no volante. Confesso que sinto falta das boas e velhas hastes para setas e limpador de parabrisa. É simplesmente muita coisa acontecendo ali no volante, cujo papel central em um carro como o F12 deveria ser ditar para onde você aponta os mais de 700 cvs.

O V12 vem a vida de uma maneira mais suave e comportada do que os V8. É como se as Ferraris com motor central fossem ainda adolescentes, ao passo que a F12 já é um adulto. A direção tem uma empunhadura que é na medida certa, nem tão grossa, nem tão fina.

Os modos de condução são selecionados por meio do manettino ali no volante.

Vamos a parte que interessa, a tocada da F12!

DIRIGINDO A F12

Novamente, uma pequena nota introdutória – dia frio (5º) e pneus de inverno. Carro tração traseira. A instrução, novamente, é ir com calma, deixar os pneus pegar um pouco de temperatura.

Saindo vagarosamente da empresa de aluguel de carros, aproveito para ver se a F12 é intimidante de alguma maneira. Realmente, a parte mais complicada de lidar com a F12 trafegando por algumas quadras de cidade pequena é o tamanho do capô. O motor, na realidade, ocupa uma posição central dianteira, ou seja, um V12 nessa condição garante um capô com dimensão continental. Apesar de ser cerca de 90 kgs mais leve e menor que uma 599 GTB em todos os sentidos, a F12 é ainda um carro grande paca!

A direção não é tão leve como você imaginaria no modo mais comportado. É impressionante o avanço da indústria nessa área. Mesmo com todas as assistências possíveis, o feedback do volante quanto às condições de via é muito bom. Naturalmente, você senta numa posição mais alta do que em uma Ferrari V8 com motor central. Tendo acabado de dirigir o Lamborghini Huracán e o McLaren 650 S essa impressão é ainda mais ressaltada. A realidade é que você dirige a F12 mais como um carro normal nessas condições.

Até que em um determinado momento eu me vi diante da primeira reta sem ninguém na frente. Uma coisa que eu gosto de fazer na primeira acelerada que dou nesses carros é simplesmente dar um kick down e sentir a força vindo. Estava imaginando que os 740 cvs e 70 Kgfm fossem resultar em uma briga absurda com os controles de tração e estabilidade, mas, curiosamente, devido ao motor aspirado que precisa de giro, a F12 teve mais desenvoltura e controle na hora de botar a força no chão do que o McLaren 650 S.

O que aconteceu nessa primeira puxada me fez rir que nem um tonto e isso para mim é um dos maiores elogios que posso dar a um carro. Depois de ter dirigido tantos carros todos esses anos, você acaba se acostumando com desempenho, mas a experiência… essa sim ainda pode surpreender.

Para mim, não há nada mais gostoso do que um motor aspirado que gosta de girar. Ok, eu sei que eu vou ter mais performance com um motor turbo, mas em termos de prazer? Não há substituto na minha opinião. Se 8200 rpms a bordo de um Hondinha Civic SI com motor K20 já é um tesão, pegue essa sensação, eleve ao “absurdo”.

A F12 é um daqueles carros que dá arrepios na sua alma. Nada se compara à sensação de um V12 aspirado acima dos 8000 rpms. A linearidade da entrega da força passa uma sensação de que nunca vai acabar… se não fosse pela limitação da relação de marchas, é como se o seu cérebro fosse explodir. Aí você coloca na equação o ronco Ferrari. É uma experiência meio que transcendente ou espiritual. Esse é o motor aspirado mais incrível que já experimentei em todos esses anos.

Não há susto, não há pico de entrega… é como se você fosse sendo amassado contra o banco e a trilha sonora fosse crescendo na melhor definição de nirvana automotivo. Nunca dirigi um carro que eu quisesse acelerar que nem um idiota sem parar.

Agora, não se engane. Realmente, a F12 é um prato cheio de tocada. A direção segue a escola Ferrari de sempre ser bem direta. Ok, não é tão direta como aquilo que senti no McLaren 650 S, que, para mim, é a coisa mais incrível que já experimentei nesse aspecto. A questão é que mesmo com toda a linearidade do motor aspirado, ainda assim, você tem que lembrar que tem 70 kgfm de torque disponíveis em um carro tração traseira. Na hora de subir no acelerador, mantenha a direção reta! Ao menor sinal de esterço, a F12 quer botar aquela traseira para dançar. Você se pega fazendo mínimas correções o tempo inteiro, mesmo com todos os controles ligados.

A direção faz um excelente trabalho. Obviamente, não adianta você querer que a F12 se comporte como uma Ferrari menor. Esse não é o papel dela e ela não muda de direção com o mesmo vigor que as irmãs menores. Você não “veste” a F12 e vai para uma estradinha vicinal comer curvas. A F12 não é daqueles carros que tolera uma certa insolência ou abuso. Apesar da dieta e das dimensões menores do que a 599 GTB, ela ainda é um carro grande, com um perfil GT e não há uma tração integral para cobrir aquela dose extra de palhaçada com o pedal da direita.

A suspensão da F12 também não é tão firme como você esperaria de um carro com toda essa força. Sim, ela lida bem com irregularidades e faz um ótimo trabalho em ajudar a por a força no chão. Porém, nas aceleradas mais vigorosas, o carro levanta a frente demasiadamente, assim como ela mergulha bem nas frenagens mais fortes.

Por falar em freios, essa foi a primeira vez na minha vida que senti bem o que querem dizer quando afirmam que freios de carbo-cerâmica precisam estar aquecidos para funcionar muito bem. Ok, a tecnologia avançou horrores nesse sentido nas últimas gerações de esportivos, mas nesse dia em específico, com o frio que estava, eu pude ver na prática como a primeira “mordida” das pinças não produzia a frenagem que eu queria e a intensidade ia aumentando conforme o meu pé ficava em cima do pedal. De toda forma, em nenhum momento em passei apuros no sentido de acreditar que os freios são subdimensionados para a F12. Apenas tinha que subir com mais força neles até esquentarem.

O câmbio é um espetáculo. São 7 marchas na caixa de dupla embreagem. Honestamente, está no nível esperado de velocidade de trocas e interações manuais com as borboletas, compatível com a melhor das caixas atualmente.

Nas curvas de alta velocidade, daquelas que você faz em estradas, a F12 é extremamente plantada. Ok, confesso que uma 458 passará mais segurança na hora de ver a velocidade subir, mas sendo gentil com o acelerador e trabalhando com uma marcha mais alta, usufruindo do torque do V12 a vida é tranquila a bordo da F12. Obviamente, não há aquela mesma sensação de “trilho” que você teria a bordo de um carro com tração integral como a Aventador.

Ressalvadas as devidas proporções, a F12 me lembra uma versão com mais chão de um BMW M3 E92 com supercharger que dirigi recentemente. É um carro extremamente forte de alta, mas que demanda uma certa suavidade nas marchas mais baixas. A vantagem é que a configuração motor dianteiro e tração traseira, por mais forte que seja, é razoavelmente previsível.

Carros como a F12 não são instrumentos precisos de tocada. Se ela fosse um assassino, ela seria um Viking com um machado na mão, e não um ninja. Ambos vão cumprir a missão, mas de maneiras completamente diferentes.

CONCLUSÃO

Apesar de ser conhecido pelo meu apreço aos modelos da Porsche, confesso que estava com saudades de dirigir uma Ferrari. Não vou entrar no mérito se eu teria uma Ferrari, em especial, na realidade brasileira. Realmente, não acho que sejam tão confiáveis ou bem construídas quanto um Porsche e tenho minhas dúvidas a respeito de mão de obra especializada adequada para elas aqui no Brasil.

Porém, não dá para negar que os italianos sabem fazer carros emocionais, que mexem com as suas vísceras e arrepiam até a alma. Nunca havia experimentado uma Ferrari V12 e a F12 tornou-se imediatamente o carro mais espetacular da marca que já testei.

Ok, trata-se de um animal completamente digital e sempre terei lugar no coração para as Ferraris mais antigas e analógicas, mas não dá para negar que mesmo as mais digitais são instrumentos de pura paixão automotiva. O Porsche, por exemplo, é um carro mais frio, mas que vai lhe conquistando quanto mais você adquira horas de vôo a bordo. A Ferrari é aquele tapa instatâneo de emoçao a flor da pele.

Não vou tecer pre julgamentos sobre o que eu acho da volta dos motores turbo à Ferrari. Quero dirigir para poder comentário, mas, na minha cabeça, hoje, eu acho que era um caminho desnecessário para a montadora, que deveria focar na sua essência emocional e passional, deixando a guerra da performance para alemães, japoneses e britânicos.

Você não precisa arrancar cada gota de performance de uma Ferrari para se divertir. Muitos falavam que a F12 era simplesmente “demais” para usar nas ruas. Realmente, é um carro que demanda respeito e certa humildade com o pedal da direita, mas se você for com calma, o V12 aspirado é uma obra prima da engenharia automotiva. Se você tentar dirigí-la como um carro menor e de motor central, sem sombra de dúvidas o carro vai ser arisco. Nesse sentido, apesar do visual rock star, eu tenho certeza que o Aventador é o carro mais adequado para você.

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