EM ALGUM BAR DA ALEMANHA (POR EDU ANDRIETTA)

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– Ei barman! Mais uma dose, por favor.

– Desculpe falar, mas o senhor já não bebeu demais?

– Claro que sim. Ou você acha que estaria pedindo outra se estivesse sóbrio?

– Ok. Pois não.

– Além do mais, se você estivesse no meu lugar, estaria fazendo o mesmo.

– Dia difícil?

– Dia, semana, mês, ano, década… um mais deprimente que o outro.

– Você trabalha com o que?

– Automóveis.

– Onde?

– Na Porsche. Quer dizer, pelo menos até hoje de manhã eu trabalhava lá.

– Entendo. Essa crise maldita está afetando as vendas de todo mundo, né?

– Que nada, nunca estiveram melhores. Este é o problema. Fui colocado de lado porque os caras querem vender cada vez mais.

– Que esquisito. Mas fazer o que, né? Bola pra frente. Há outras fabricantes tão boas quanto aqui pertinho.

– Mercedes? Lá aconteceu a mesma coisa comigo. BMW e Audi? Idem. E não é uma exclusividade aqui da Alemanha, não. Tive o mesmo problema na Ferrari há 10 anos e, em seguida, na Lamborghini.

– Você não tem motivo pra ficar tão chateado assim. Com esse seu currículo, logo choverão propostas.

– Que nada, estou em decadência. Só consigo ver futuro em montadoras que produzem carros populares na América do Sul. E mesmo assim, acho que até nesse, que é o pior mercado com mundo, as oportunidades vão acabar para mim nos próximos anos.

– Credo, que pessimismo! Aposto que o senhor só está falando isso por causa da bebida.

– Bem lembrado. Completa o copo, por favor.

– Eh, pois não… Mas diga, o que exatamente o senhor faz?

– Eu!? Meu amigo, eu dou aos carros o dom de não se comportarem apenas como simples máquinas obedientes. Eu faço com que eles desafiem os motoristas, testem suas habilidades, punam os seus erros e glorifiquem seus êxitos. Porém, só depois de muito treino para aprender a controlar as características que eu dou ao carro é que vem a recompensa. Ele passa a agir como uma extensão do motorista, o membro mais poderoso e preciso de seu corpo. Imagine coração e motor funcionando no mesmo ritmo. Sim colega, só eu sei criar a conexão definitiva onde máquina e homem viram o mesmo ser. Mas, aparentemente, os consumidores de automóveis não querem mais saber de ter trabalho e enfrentar desafios hoje em dia.

– Nossa, que coisa linda… senhor eh… senhor… eh…

– Manual.

– Manuel?

– Não, Manual. Câmbio Manual.

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